Eu era uma menina de pouca conversa, poucos amigos e desconfiada. Se me olhavam 'torto', lá estava eu, descendo o braço. Mas tinha um grande amigo: meu irmão. Eu o considerava um protetor. Ele é apenas um ano mais velho, mas eu tinha tanta confiança nele, me entregava aos seus cuidados no caminho da escola e na própria escola. No primeiro ano estudamos juntos na mesma sala de aula. No ano seguinte, me trocaram de sala, mas eu fugia para a sala dele sempre que tinha oportunidade. Queria ficar perto dele. Na hora do recreio, ele ia jogar bola com os meninos e eu me sentava para observá-lo. Em vão ele me incentivava a brincar com alguém. Até que desistia de jogar pra ficar perto de mim.
Um dia, fugi da minha sala pra sala dele e disse que a professora tinha deixado. Logo descobriram a mentira, quando minha professora foi até a sala me buscar. Fui parar na sala da diretora. Muito tímida, não tive coragem de dizer que queria usar o banheiro e fiz xixi na sala dela. Nessa época eu estudava na Escola Municipal de Primeiro Grau Maria Tomé Neto, na Nova Suíça, hoje um bairro nobre da capital goiana. Eu morava no Jardim América e íamos a pé. Não ficava muito longe.
Na escola eu não tinha mesmo nenhuma amiga. Mas próximo a minha casa morava uma senhora muito distinta, membra da igreja Batista. Era a D. Levina. Ela tinha três filhas: Aparecida, Eliane e Eleusa. Também tinham as filhas do Pr. Paulo, da Igreja Batista, Cláudia e Gláucia. E os filhos da irmã Elisa: Vanilda, Vanilza, Waldemar e Eleonora. E da irmã Rita: Quésia, Wilma e Cléber. Todos esses da Igreja Assembléia de Deus. Os filhos do seu Abílio e da D. Amélia (ambos in memorian): Sandra, Tânia, Du, Walter e o Neném. Só com alguns desses amigos de infância que continuei a me relacionar, mesmo que só por meios virtuais. Alguns eu nunca mais vi. Sinto saudades deles.
Depois nos mudamos para o Jardim Europa. Ali eu não me lembro de ter amigos. Não havia crianças da mesma idade. Haviam vizinhos bondosos com filhos um pouco mais velhos. Eram também pessoas boas. Mas ficamos ali só um ano. Depois nos mudamos para o Jardim Nova Era, Aparecida de Goiânia, onde passei a adolescência e juventude. Ali conheci sentimentos diversos. Amei, senti raiva, conheci o desprezo, mas também a verdadeira amizade. Dali trago lembranças boas e ruins. Mas agradeço a Deus por ter lembranças. Por me lembrar daqueles que fizeram parte da minha história de vida. A começar por meus irmãos e irmãs. Depois vizinhos, amigos mais distantes, colegas de escola e irmãos da Igreja. E, sinceramente, entre todas as pessoas do mundo, minha maior dor, conheci entre os irmãos da igreja em que congreguei. Na medida em que for me lembrando detalhadamente, escreverei, na certeza de que, talvez, o que vivi, possa servir, de algum modo, de experiência para você nunca desistir da vida, nem de seus princípios.