quinta-feira, 9 de junho de 2016

Vovô morreu!

Ao retornarmos pra Goiânia, tivemos a notícia de que meus avós estavam ali em casa. Havia algum tempo que não os via e, apesar da enorme dor de cabeça que eu estava sentindo, fiquei feliz, mas ao mesmo tempo apreensiva. Nosso pequeno barracão de dois cômodos estaria acolhendo por pouco tempo, a pessoa que minha mãe mais amava: meu avô. Estava magro, com a barba e os cabelos crescidos. O rosto tinha muitas e profundas marcas, embora fosse tão novo, ele tinha apenas 58 anos. Por causa de um acidente ocorrido uns anos antes, meu avô foi ferido na cabeça. A ferida fora curada apenas superficialmente e nenhum exame fizeram nele na época. Agora, ele estava com tumores no lugar da ferida. Isso eu soube apenas anos depois. Fiquei por um tempo tentando reconhecer aquele homem que eu conheci com aspecto duro e cheio de vida. Ele usava bigode e era um homem bonito. Pele morena e cabelos bem negros. O peito totalmente coberto de pelos igualmente pretos. 

Lembro-me que ele tinha uma padaria. Algumas vezes o cheiro me vem à memória daqueles pães frescos, com casca tão fininha, tão bem assados e gostosos para o meu paladar infantil. Outra lembrança que tenho do meu avô [eu tinha pouco mais de cinco anos quando o vi pela última vez] era de vê-lo batendo feixes de arroz. Ele chamava meu irmão de Josiele. O 'e' acrescentado ao final da palavra terminada em 'l' era comum naquela época entre meus conhecidos do norte. Nessa época, vovô morava na cidade de Colmeia, antes Goiás, hoje atual estado do Tocantins. Moramos ali desde o nascimento de minhas quarta e quinta irmãs, de 1975 a 1977. Nesse mesmo ano nos mudamos para Goiânia. Meu avô morreu em março de 1980, trinta dias após ser internado e ter passado por duas cirurgias para retirada dos tumores. 

Quando descemos do caminhão, chegando de São Luís de Montes Belos, corri para ver meus avós. Vovô estava deitado na cama de minha mãe e da porta de entrada da cozinha para o quarto, o avistei tão frágil. Tomei sua bênção e fui para fora. Minha mãe havia preparado um colchão para que eu me deitasse [por causa da dor de cabeça]. Começava a escurecer e o tempo ficava também um pouco nublado. Meus pais tinham trazido muito milho verde e começaram a fazer pamonha. Fui acordada pela mamãe mais tarde. E comi pamonha recém-tirada do fogo. Como era doce, derretia juntamente com o queijo. Meus irmãos faziam algazarra pelo quintal. Fiquei feliz ao ouvir a voz de minha mãe e minha avó. Lembrei-me da presença deles ali e sorri.

Minha mãe conseguiu uma vaga no hospital Evangélico, em Goiânia, para meu avô. Nós, é claro, não podíamos visitá-lo porque éramos muito pequenos. Mas minha mãe estava o tempo todo com o vovô. Na primeira cirurgia que fez, vovô ficou com um lado paralisado. Na ocasião foram retirados três tumores. Uma nova tomografia mostrou que no local, nasceram outros seis tumores. Vovô passou por uma nova cirurgia e entrou em coma. Logo retornava ao nosso pequeno barracão, não mais aquela figura frágil, com marcas profundas no rosto e olhos cheios de lágrima. Agora ele chegava completamente imóvel num caixão. Vestido com uma camisa azul clara de mangas compridas, barba bem feita, mas com bigode. Sua aparência era de quem dormia um sono tranquilo, um repouso que não havia encontrado na terra antes, no meio dos viventes. Eu me lembrava do seu sorriso com um dente de ouro do lado. Como era bonito. Fomos privados de sua companhia, de seus ensinamentos, de sua sabedoria. Embora fosse um homem de poucas palavras, meu avô era um homem de palavra. Ele sempre dizia: "Um homem pra ser homem precisa de duas coisas: opinião e vergonha na cara". E assim ele viveu sua vida. E renunciou ao mundo pra viver pra Deus. Era cristão verdadeiro. [Suspiro!]. Que saudade, meu Deus.


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