segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"Papai, deixa a lamparina acesa!?".

É estranho como as memórias ficam armazenadas no nosso inconsciente, e como essas memórias determinam nossos passos no caminho da vida. Durante anos a fio, senti-me culpada por algo que eu não tinha feito, nem provocado. A culpa me corroía e me fazia ausentar-me das pessoa que me amavam. Mais do que isso, fazia com que minha conduta se tornasse automática, sem a mínima noção do certo e do errado. Como se percebe, no meu interior estava uma guerra que, por muitos anos, chamei de 'poço de contradições'. Segundo Yancey, a culpa "é um estado de espírito que leva a pessoa  a se sentir merecedora do castigo pela violação da Lei moral".

O que senti naquela noite foi medo, angústia e sórdida ignorância do que estava havendo. Sentia um corpo nu sobre mim, beijando-me a boca e levando minhas mãos até suas partes íntimas. Sentia minha roupa próximo ao joelho. E uma espécie de pavor me fazia respirar forte, mas fingia que estava dormindo. A única coisa que me vinha à mente é que se meu pai soubesse o que estava havendo, me bateria. Sim. Tive medo de apanhar do meu pai. E sustentei uma mentira para tornar meu gesto 'nobre', dizendo que não gritei para proteger a vida do estranho. Tinha tanta gente na casa. Tantos trabalhadores. Ele poderia ser linchado. Mas eu estava com medo da reação do meu pai em relação a mim.

As surras que levei desde bem pequena me tornaram uma pessoa sem coragem para pedir ajuda. Ou mesmo para me abrir com alguém. Nem com minha mãe eu conseguia dizer tal coisa. E por muitos anos guardei pra mim mesma. Ele não me violentou sexualmente. Mas me senti invadida psicologicamente. Foi um ato violento pra mim, embora não houvesse penetração. Minha chamou meu pai porque queria usar o banheiro. Foi como se Deus sorrisse pra mim e me mostrasse um auxílio. Meu pai entrou no quarto com uma lamparina. Não sei pra onde aquele estranho foi. Quando meu pai e minha irmã voltaram, pedi ao meu pai que deixasse a lamparina acesa. Tinha medo que ele voltasse. Mas graças a Deus, nunca mais voltou. 

No outro dia, rodeei minha mãe inúmeras vezes querendo uma oportunidade para contar. Lembro-me que fiquei próxima à cisterna. A água era tão alta, a cisterna tão cheia que vinha até quase à boca. Quase não precisava de corda. Naquela fazenda minava água. Lembro de uma vez que meu pai abriu uma cova para fazer uma churrasqueira. Não tinha 20 cm de profundidade, mas ele teve que forrá-la com tijolos. Minha mãe entrava e saía da casa, buscava água. Quando se aproximava eu dizia: "Mamãe! [...]". Mas era tudo. Não sabia o que dizer. Aliás, não sabia como dizer.

Então, tomava banho mais cedo e me escondia no paiol antes que os homens chegassem da lida. Enquanto eles iam lavar-se no pequeno córrego da propriedade, eu jantava e ia me deitar. Nunca mais ouvi nenhuma história. E foi assim até voltarmos pra casa.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário