Há uma tendência em cada um de nós de negar
a solidão. Queremos viver a vida com independência, sem nos apoiar em outras
pessoas. Mas um sentimento incômodo de solidão continua se interpondo em nosso
caminho. Às vezes ele se torna tão forte que mal conseguimos pensar em qualquer
outra coisa. Eu creio que Deus nos criou incompletos, não como um truque cruel
para nos deixar sempre no limite da autopiedade, mas como uma oportunidade de
nos voltarmos para os outros com necessidades semelhantes. Seu plano como um
todo para nós envolve relacionamentos com os outros: doarmo-nos em amor ao
mundo ao nosso redor. (Philip Yancey).
Lembro-me do pequeno barracão em que
morávamos no Jardim América. Dois minúsculos cômodos, feitos de adobe e reboco de barro. A cobertura tinha uma telha francesa, e eu gostava de ficar olhando os detalhes que ela possuía. No quarto tinha a cama dos meus pais na parede do fundo, em frente à porta da entrada, nos pés da cama ficava a nossa, minha e de meus quatro irmãos menores, porque uma irmãzinha dormia com meus pais. Fechando o contorno do quarto, e do lado oposto à cama dos meus pais, próximo à porta, ficava um móvel onde minha mãe guardava nossas roupas. E à moda de um criado mudo, ao lado da cama de casal, um outro móvel com uma radiola. Através dela, eu tive o privilégio de ouvir as mais lindas canções evangélicas de décadas anteriores. O centro do minúsculo quarto que sobrava, mal cabia uma bacia de alumínio que mamãe utilizava para lavar-se, e também a meu pai e a nós os seis filhos. Banheiro era um luxo que ainda não tínhamos tido condições de possuir. A cozinha era outro cômodo muito pequeno. Havia um fogão de quatro bocas, uma prateleira rigorosamente organizada, com vasilhas de alumínio muito bem areadas, com forros brancos e bem passados. Minha mãe sempre foi caprichosa com a casa e conosco. Como sabia costurar, fazia belos vestidos pra nós e roupas sociais para meus irmãos, para ela mesma e para meu pai. Também havia um pequeno banco de madeira muito pesado. Diversas vezes ele quase esmagara meus pés, um de cada vez. Esses eram os móveis que tínhamos. Mas como éramos pequenos, pra nós que não conhecíamos conforto, nem luxo, a vida era muito boa, com muitas brincadeiras e diversões.
Tudo o que tínhamos, ou o pouco que meu pai conseguia quando trabalhava nas fazendas quando levava energia elétrica, era dividido com os vizinhos. Meu pai nos ensinou assim, dividir o pouco, mas com alegria. Acredito que esse comportamento de meu pai era proposital, primeiro, porque era cristão, segundo, porque também passou por privações na infância. Mas, lutador como era, nunca abaixou a cabeça. Antes lutou com todas as forças para sustentar a família de modo digno. Watchman Nee diz: "Um cristão é alguém que não apenas se conforma
com a situação, mas está sempre satisfeito". Era assim com meu pai, era assim com minha mãe, do mesmo modo com meus irmãos, mas [...] e eu? Por que me sentia tão sozinha, nunca estava satisfeita.
Uma vez eu disse pra minha mãe que ia beber veneno. Ela preparou um copo com alguma coisa que, pra mim era veneno, mas hoje sei que ela não colocaria veneno de verdade, mas nunca mais falamos sobre o assunto. E me deu o copo. e me desafiou a beber. Eu nunca mais disse aquilo, mas também deixei de ter a plena confiança que tinha depositado neles. E isso me fez carregar por muitos anos uma dor causada em uma noite escura. Meu pai havia pegado um serviço em São Luís de Montes Belos. Zona rural. E como ficariam muitos dias, levou-nos, juntamente com minha mãe para que ela cozinhasse para os peões que, claro, não eram poucos. A casa era grande, mas não tinha móveis e tínhamos que dormir no chão. Também foi uma outra família, uma senhora com dois filhos pequenos, esposa de um colega de trabalho de meu pai que, agora, era o encarregado da turma, morar na mesma casa que a gente.
Inicialmente nos sentíamos livres, correndo e brincando. Nos finais de semana, fazíamos churrasco. À noite nos sentávamos na porta da casa [que ainda não tinha energia elétrica] para contar histórias de mula sem cabeça, de tesouros escondidos, de lobisomem, de 'pai-do-mato', entre outras. Era muito bom. Mas durou pouco. Numa dessas noites chegou um caminhão carregado de materiais e postes. Eu era a mais velha da turma, abaixo somente de meu irmão, tinha apenas 9 anos. Era fim de tarde. Jantamos e nos sentamos para contar histórias. Inocente, sentei-me no colo do motorista do caminhão recém-chegado. ele colocou a mão sobre a minha blusa e começou a acariciar meu peito. Claro que ainda não tinha seios, nem em formação. E eu, nem de longe, sabia o que significava aquilo[...].
Inicialmente nos sentíamos livres, correndo e brincando. Nos finais de semana, fazíamos churrasco. À noite nos sentávamos na porta da casa [que ainda não tinha energia elétrica] para contar histórias de mula sem cabeça, de tesouros escondidos, de lobisomem, de 'pai-do-mato', entre outras. Era muito bom. Mas durou pouco. Numa dessas noites chegou um caminhão carregado de materiais e postes. Eu era a mais velha da turma, abaixo somente de meu irmão, tinha apenas 9 anos. Era fim de tarde. Jantamos e nos sentamos para contar histórias. Inocente, sentei-me no colo do motorista do caminhão recém-chegado. ele colocou a mão sobre a minha blusa e começou a acariciar meu peito. Claro que ainda não tinha seios, nem em formação. E eu, nem de longe, sabia o que significava aquilo[...].
Nenhum comentário:
Postar um comentário