Recordar a própria vida
é fundamental para nosso sentimento de identidade; continuar lidando com essa
lembrança pode fortalecer, ou recapturar, a autoconfiança. (THOMPSON, 1988).
No ano em
que completaria oito anos de idade, em 1979, fui matriculada juntamente com meu
irmão na “Escola Municipal de Primeiro Grau Maria Tomé Neto”, num bairro hoje nobre de Goiânia, chamado Nova Suíça. Ali estudei dois
anos. Nesse período eu tinha fortíssimas dores de cabeça (enxaqueca) e cheguei
a ser reprovada por falta por causa das fortes crises. Talvez por isso não
tenha guardado muitas recordações das primeiras lições que aprendi, da escola e
das professoras daquele período.
Mas lembro-me
que na primeira série eu gostava de me vestir de blusa branca e saia azul de
pregas que minha mãe passava com tanto capricho (sem, infelizmente, ter
condições de calçar as tão sonhadas meias brancas e sapatinhos pretos) e ficar
numa fila para cantarmos o hino nacional brasileiro enquanto a bandeira era
hasteada. Gostava de Educação Moral e Cívica e, posteriormente, de OSPB
(Organização Social e Política Brasileira). Não tinha mesmo consciência de que
tais disciplinas fossem formas de controle moral durante a ditadura militar.
Como bem
afirmara Celso Furtado, o autoritarismo agrava a exploração da massa
trabalhadora e priva as pessoas de seus direitos fundamentais, que são os
civis; restringe a participação da cidadania na atividade política e degrada o
exercício do poder ao privá-lo de controle social. É a prática política que
indica os caminhos na construção do quadro institucional que dê efetividade aos
ideais de liberdade, bem-estar e tolerância, que são a essência da civilização
moderna.
E a prática
política civil não poderia ser
aceita num regime autoritarista, muito menos ensinada numa educação fundamentada
numa prática bancária. Como pondera Freire, uma educação não deve ser
superficial, mas uma educação que ensine o ser humano a ler a própria realidade
de opressão com olhos críticos, olhos que o levassem a entender sua condição de
oprimido; que o ensinasse a ler a gramática das relações sociais. Nesse
sentido, ele contradiz os conceitos de transmissão de hábitos bons ou virtudes
(mediados pela educação que pretendia uma conformidade social), mediante as
quais o ser humano poderia fazer uso reto das suas faculdades, como ensejava Aristóteles.
Pois sempre acreditou que o conteúdo da educação não poderia ser trazido pronto
para que o educando apenas o “engolisse”, mas sim, concebido e realizado no
grupo, nas situações históricas da comunidade da qual fazem parte o educador e
o educando.
Entretanto,
no período citado, havia uma ampla conformidade comportamental da massa, um
comportamento determinado por regras que já estavam internalizadas pelos
participantes dos grupos. Alvarenga diz que o comportamento social é
determinado por essas regras internalizadas implícitas (através de uma coação
social generalizada) ou explícitas, que se dão pela coerção direta (ou punição
pelo comportamento social inadequado). Eu pude perceber isso na educação que
meus pais nos davam.
[...] toda ação é determinada pelas motivações do ator
hipotético, mas, como estas motivações são determinadas, por sua vez, pelo meio
cultural em que ele vive, a sua própria ação, então, é condicionada por este
meio cultural. (ALVARENGA, 2002, p.39).
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