quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Primeiros Anos Escolares


Recordar a própria vida é fundamental para nosso sentimento de identidade; continuar lidando com essa lembrança pode fortalecer, ou recapturar, a autoconfiança. (THOMPSON, 1988).

No ano em que completaria oito anos de idade, em 1979, fui matriculada juntamente com meu irmão na “Escola Municipal de Primeiro Grau Maria Tomé Neto”, num bairro hoje nobre de Goiânia, chamado Nova Suíça. Ali estudei dois anos. Nesse período eu tinha fortíssimas dores de cabeça (enxaqueca) e cheguei a ser reprovada por falta por causa das fortes crises. Talvez por isso não tenha guardado muitas recordações das primeiras lições que aprendi, da escola e das professoras daquele período.
Mas lembro-me que na primeira série eu gostava de me vestir de blusa branca e saia azul de pregas que minha mãe passava com tanto capricho (sem, infelizmente, ter condições de calçar as tão sonhadas meias brancas e sapatinhos pretos) e ficar numa fila para cantarmos o hino nacional brasileiro enquanto a bandeira era hasteada. Gostava de Educação Moral e Cívica e, posteriormente, de OSPB (Organização Social e Política Brasileira). Não tinha mesmo consciência de que tais disciplinas fossem formas de controle moral durante a ditadura militar.
Como bem afirmara Celso Furtado, o autoritarismo agrava a exploração da massa trabalhadora e priva as pessoas de seus direitos fundamentais, que são os civis; restringe a participação da cidadania na atividade política e degrada o exercício do poder ao privá-lo de controle social. É a prática política que indica os caminhos na construção do quadro institucional que dê efetividade aos ideais de liberdade, bem-estar e tolerância, que são a essência da civilização moderna.
E a prática política civil não poderia ser aceita num regime autoritarista, muito menos ensinada numa educação fundamentada numa prática bancária. Como pondera Freire, uma educação não deve ser superficial, mas uma educação que ensine o ser humano a ler a própria realidade de opressão com olhos críticos, olhos que o levassem a entender sua condição de oprimido; que o ensinasse a ler a gramática das relações sociais. Nesse sentido, ele contradiz os conceitos de transmissão de hábitos bons ou virtudes (mediados pela educação que pretendia uma conformidade social), mediante as quais o ser humano poderia fazer uso reto das suas faculdades, como ensejava Aristóteles. Pois sempre acreditou que o conteúdo da educação não poderia ser trazido pronto para que o educando apenas o “engolisse”, mas sim, concebido e realizado no grupo, nas situações históricas da comunidade da qual fazem parte o educador e o educando.
Entretanto, no período citado, havia uma ampla conformidade comportamental da massa, um comportamento determinado por regras que já estavam internalizadas pelos participantes dos grupos. Alvarenga diz que o comportamento social é determinado por essas regras internalizadas implícitas (através de uma coação social generalizada) ou explícitas, que se dão pela coerção direta (ou punição pelo comportamento social inadequado). Eu pude perceber isso na educação que meus pais nos davam.

[...] toda ação é determinada pelas motivações do ator hipotético, mas, como estas motivações são determinadas, por sua vez, pelo meio cultural em que ele vive, a sua própria ação, então, é condicionada por este meio cultural. (ALVARENGA, 2002, p.39).

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