A prática da liberdade só encontrará adequada expressão numa pedagogia em
que o oprimido tenha condições de, reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se
como sujeito de sua própria destinação histórica. (Ernani Maria Fiori sobre a obra de
Paulo Freire).
13 de abril
de 1971. Vim à luz numa casa de paus-a-pique e cobertura de bacuri, numa pequena
propriedade rural do povoado de Planura Verde, município de São Luís de Montes
Belos, interior de Goiás. Minha mãe dizia que no momento em que nasci, segurei
o braço da parteira com os dois braços e as duas pernas juntas, abraçando-o.
John Dewey
(1859-1952) acreditava que a ação é inerente à natureza humana, precedendo o
conhecimento e o pensamento. Esse gesto de um bebê recém-nascido demonstra ser um
exemplo de que o instinto de autoproteção leva o ser humano a buscar diversas
formas de se resguardar de tudo aquilo que o arranca de sua “posição de
conforto”. O útero é assim, protetor, temperatura agradável. Ali o bebê não
sente fome, nem sede, nem necessidade de buscar ser atendido em algo, já que
suas necessidades são satisfeitas sem que faça esforço algum, sem que lute por
isso, pois tudo está bem.
Mas era
somente lá. Porque, nesse período, o Brasil vivia um tempo de repressão e ditadura
militar. Pessoas eram presas, torturadas, mortas, arrancadas do convívio
familiar e da sociedade por representarem uma “ameaça” à ordem e ao progresso. Na
educação, por toda a parte, educadores eram presos e seus trabalhos combatidos.
Para Celso
Furtado, que também fora privado dos direitos políticos, preferindo exilar-se
em busca de condições que lhe permitissem estudar o papel das ideologias nas
experiências de reconstrução social, tendo em vista a superação da pobreza e do
atraso das massas: “O exilado não é mais
do que um homem desvalido”, tendo como principal desafio “encontrar uma justificativa para a vida,
inventar todos os dias uma compensação para o esforço que significa viver”.
Os eventos
que tornam as pessoas vulneráveis não são apenas motivados por aspectos de
natureza econômica, antes, são também de fragilização dos vínculos afetivos e
relacionais, de incumbências sociais tais como, discriminações etárias,
étnicas, de gênero ou por deficiência, vinculadas à violência, ao território, à
representação política, etc. todos igualmente afetam as pessoas. Tais questões
são geradas socialmente, podendo ser originadas das formas como as pessoas
lidam com as perdas, com os conflitos, com a morte, com a separação, igualmente
com as rupturas e entendidas como questões de subjetividade e
intersubjetividade no meio familiar e social. (ALMEIDA, 2006)
No seio de
minha família, no meio rural, persistia o conceito filosófico da práxis social marxista de que o homem é
aquilo que se manifesta em sua vida, coincidindo com o que produz, o quanto
produz e como produz. Considerando-se que as condições materiais da produção do
homem definam o que ele é realmente. Na realidade, a individualidade dessa
concepção traduzia-se na coletividade rural daquele período em que sem uma
educação formal, muitos acabavam reprimindo-se. Não foi diferente em relação
aos meus pais, aos quais restava apenas a força física para a aplicação dos
conhecimentos da lida em que eles próprios nasceram. Planura foi um dos locais
que consumiram boa parte da força jovem de meus pais que trabalhavam em terreno
alheio, já que seu ganho era insuficiente para manter a família e adquirir um
local próprio. Agora, se as condições sociais eram precárias, as de educação
formal não eram tão distintas delas.
Entretanto,
apesar da vida modesta e das diversas vezes que nos mudávamos de um lugar para
outro, fato que tirava-nos a possibilidade de constituir um local realmente
nosso e que nos desse alguma identidade, uma raiz crescia e se fortalecia nos
laços familiares: a nossa fé. Essa mesma que nos acompanhou nos momentos de
crise e de escassez, de dor e desespero quando o que tínhamos mal dava para
alimentar o corpo. A despeito da escassez, nosso lar era um local onde meus
pais nos ensinavam princípios e valores que nos acompanharam por toda a vida.
Com eles aprendemos a amar mais as pessoas do que as coisas. E até mesmo o
pouco que tínhamos era divido com quem possuía menos ainda.
Parte do
êxodo rural deu-se por causa das durezas do trabalho braçal, pela falta de
escola para aqueles que se aventuravam a querer aprender um pouco mais do que
seus próprios pais sabiam. Além disso, o homem do campo mais do que ninguém
reconhecia que tudo o que ele plantava, além de demandar tempo para colher,
ainda dependia de sol e chuva a seu tempo. O plantio “na meia” era uma prática
que meus pais conheciam bem. Mas, da metade que lhes sobrava, ainda tinham os
impostos descontados, o aluguel e as despesas, restando muito pouco para se
viver. Não tinham direitos, não como cidadãos.
A conquista
da cidadania foi considerada por Gramsci como um objetivo da escola que deveria
ser orientada para a elevação cultural das massas, livrando-as de uma visão de
mundo cheia de preconceitos e tabus, em parte impregnados de equívocos
decorrentes da religião e do folclore, que favoreciam a interiorização acrítica
da ideologia das classes dominantes. Bem, nenhuma das famílias rurais pobres da
época era capaz de lutar contra as injustiças sociais que lhes eram impostas de
muitas maneiras. Na contramão da
“cidadania”, o homem rural não possuía nenhuma noção de criticidade contra as
forças exercidas pelas instituições políticas e, sobretudo, pelo controle
militar, e ele mesmo não tinha conhecimento disso. Não havia escola, pelo
menos, não para todos.
Se houvesse,
talvez os menos favorecidos pudessem, através da alfabetização, construir uma
visão de mundo que lhes proporcionasse meios de alterar sua condição (sub)humana.
Além disso, a educação se constitui um meio fundamental de os homens transmitirem
cultura, ciência, história, filosofia, sua própria essência, dimensão afetiva e
intelectual, ao passo que sua interrupção, ao contrário, é a segregação desse
processo. (ALMEIDA, 2006).
Ainda na
década de 1970 houve uma grande intervenção dos propósitos e finalidades do
ensino com o intuito de “ajustá-lo” às necessidades da produção, passando a
educação às mãos do ensino particular tornando-se uma educação seletiva e
bancária, provocando ainda mais seu distanciamento das classes mais pobres,
especialmente, para os moradores da zona rural. (SARTÓRIO, 2010). Meus pais
vivenciaram isso na própria pele.
Nessa
realidade, “a educação assume uma dimensão meramente instrumental, qual seja, a
de preparar força de trabalho para um mercado em desaparecimento”. (GERMANO,
1998, p. 14). Isso demonstra uma contradição: o indivíduo deve se preparar para
o mercado de trabalho, ou, do contrário, estará excluído dele. Por outro lado,
as políticas educacionais passam a ser formuladas com o intuito de fornecer,
ainda conforme Germano (1998, p. 17), “o mínimo ou a cesta básica da educação à
população pobre”.
Quando nos
mudamos, em março 1977, da cidade de Colmeia, hoje interior do estado do
Tocantins, para a capital Goiânia em busca de condições melhores de vida, eu
tinha 6 anos incompletos. E até então eu e meus irmãos havíamos frequentado apenas
a escola bíblica dominical (que, ao menos para mim, trazia verdadeiro consolo
aprender sobre um amor tão grande que nos constrangia a Deus) realizada nas
igrejas, mas nenhuma outra escola de educação formal. Em parte isso se deu por
causa das tantas vezes que nos mudamos de uma cidade para outra, sempre em
busca de melhorias. Mas agora, com um local mais ou menos definido, embora não
nosso, teríamos oportunidade de frequentar uma escola.
Meus pais
não eram contra estudarmos, pelo contrário, pois ambos tiveram dificuldades para
conseguir um ensino elementar em suas vidas. Meu pai mal conseguiu frequentar
dois anos e, como presente, recebeu um olho furado pela imprudência de uma
professora que bateu em meu tio com um fio de energia elétrica, cuja ponta, ao
se soltar, foi direto no olho de papai. Nessa época a correção dos “erros” era
ainda mais severa, podendo ir além daqueles de ortografia e gramática. É também
o que relata com maestria nossa poetisa goiana Cora Coralina em suas memórias
dos tempos escolares. Um método de correção que contrariava a posição de muitos
filósofos, inclusive de Sócrates quando afirmava que o mestre deve ter paciência
com os erros e com as dúvidas dos discípulos, já que a consciência dos próprios
erros leva os alunos à progressão na aprendizagem. Paulo Freire acreditava que
o método de correção baseado na reescritura poderia fazer com que os alunos
observassem os próprios erros, mas não apenas aqueles de ordem gramatical, como
também de coesão e coerência, de cognição, uma vez que em muitos textos é
possível perceber ausência de vocábulos, falta de conclusão de pensamentos e
daí por diante.
Mas o fato
de não ter estudado não fez de meu pai menos sábio do que sempre foi. Seu
conhecimento de mundo era admirado por nós e até hoje sei que se tornaria um
excelente profissional em qualquer área do conhecimento humano que escolhesse,
embora as condições sociais o impedissem de realizar tal sonho. “Mas o espírito
humano conduz progressivamente à descoberta de si próprio e cria, pelo
conhecimento do mundo exterior e interior, formas melhores de existência humana”.
(JAEGER, 2003, p. 3).
Talvez as
conquistas que ele esperava obter na vida sempre estivessem longe da educação
formal, não por vontade própria, mas porque estava muito aquém de sua realidade.
O que não o impediu de obter uma forma melhor de existência. E nossas condições
de pobreza nos fizeram admiradores de um homem honrado e trabalhador que meu
pai sempre foi e ainda é. Hoje, não tão velho, no ano de 2013 completou 64
anos, não possui força nem saúde para trabalhar. Esgotado pelos esforços
físicos dos trabalhos rurais, inicialmente, depois igualmente braçais, quando
foi obrigado a cavar buracos em serviços de encanamento urbano, experiência que
lhe elevou ao cargo de encarregado de turma numa firma de eletrificação rural (Elicastro) por sua determinação e
vontade de vencer a cada dia. Como encarregado, tornou-se um grande eletricista
(ele e meus dois irmãos que abandonaram a escola para trabalharem),
aproveitando as oportunidades que tinha. Nunca se cansou de batalhar e sempre
enfrentou os trabalhos, mesmo sem experiência anterior na função.
Talvez fosse
a vida de trabalhos penosos que fizera de meu pai um homem igualmente duro,
inabalável diante das dificuldades. Como não tinha tempo, também não tinha
paciência para lidar com a esposa e filhos. Tudo o que nos ensinava era com
autoridade. Meu pai tinha dificuldade de demonstrar carinho, mas o modo como
tratava as pessoas menos favorecidas, servia como exemplo de um homem de bom
coração. Por isso, o seu exemplo de vida nos impactava mais que sua dureza. Então,
tínhamos a certeza de que a vida era dura, mas como ele, adquirimos grande
coragem de enfrentá-la sem medo.
Minha mãe
frequentou o que na época era considerado mais do que “suficiente” para uma
mulher (quando uma mulher conseguia ingressar-se numa escola, claro). No ano em
que prestaria o
Exame de Admissão, meu
avô achou que já era satisfatório e comprou-lhe uma máquina de costura. Achava
que seria um melhor presente para uma futura dona de casa. Foi útil porque posteriormente
nossas melhores roupas foram feitas por ela quando morávamos na roça. Com meu
avô ela aprendeu também os ofícios de padeiro, o que fez dela uma ótima
cozinheira também.
Minha mãe
era uma mulher muito forte. Uma verdadeira leoa na defesa dos filhos. Na lida do
campo trabalhava de ombro a ombro com meu pai, cuidava com afinco dos afazeres
domésticos e também dos filhos, e não se deixava abater por nada. Como havia
recebido uma educação formal melhor, era ela quem nos ajudava nas tarefas
escolares. Com mamãe aprendi a cozinhar e cuidar de meus irmãos menores. Meus
pais não demonstravam fraqueza, embora percebêssemos que nem sempre conseguiam
suprir todas as nossas necessidades, nos momentos de fartura, nos ensinaram a
dividir com os outros tudo o que tínhamos.
Talvez pelo
fato de meus pais jamais demonstrarem fraqueza, cresci com as mesmas
dificuldades de pedir ajuda, de mostrar minhas deficiências, meus defeitos. Mas
de certa forma esse exemplo contribuiu para meu crescimento, amadurecimento e
para o aumento da minha fé. Não aquela fé religiosa, mas uma certeza de que Deus
com um propósito maior e sendo mais forte do que todos estava me protegendo. A
maior percepção que tive de amizade e proteção foi com Deus, e com meu irmão
mais velho durante a infância.
Nessa linha
de pensamento, entendo os princípios postulados por John Frederick Herbart
(1776-1841) sobre a unidade do desenvolvimento e da vida mental. Em sua
concepção, o ser humano não é compartimentado, mas uma unidade. E tem a
capacidade de estar em contato com o meio ambiente por meio da percepção
sensorial, dando origem às representações primárias que, posteriormente, formam
os conceitos cuja interação entre eles conduz ao ato de julgamento e raciocínio.
Sendo, pois, a percepção a característica fundamental do ser humano, sua
capacidade de assimilação, que forma uma unidade não apenas do ser, como também
do ato de conhecer. Eu me sentia inteira na minha infância, no contato com a
natureza, mesmo a despeito das privações.