segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Desejo no meu coração.

Quando congregávamos no Jardim América, numa pequena congregação, um dia esteve ali uma comissão de missões, selecionando jovens para uma escola de missões. Como eu era muito menina, meu pai não permitiu, mas isso ficou como um desejo ardente no meu coração. O tempo passou e esse desejo adormeceu. Enquanto eu crescia, meus pais se afastaram da comunhão da igreja por razões que exporei em outra oportunidade. Somente alguns anos depois, após meu regresso a comunhão do Senhor, cursei um seminário oficialmente. Nos tempos de colégio conheci uma pessoa que marcou muito minha vida, uma irmã, amiga, colega de escola, companheira de grandes momentos bons e ruins. Devido a alguns fatos ocorridos, tornei-me uma pessoa extremamente deprimida. Essa minha amiga, Ilma, foi uma mão forte usada por Deus para me levantar nas muitas vezes em que eu me sentia no fundo do poço. Junto com ela a chama de missões tornou a arder em mim, e pelas aulas do seminário que estava cursando (IBICAMP), Deus guardava para nós grandes propósitos e, talvez, ela tenha servido de inspiração para mim em muitas decisões. Sempre amei com um amor de Deus a minha amiga Ilma e até hoje, não importa a distância que moramos uma da outra, ou o tempo que passe, quando nos encontramos, nossa amizade permanece inalterada. Essa é uma das muitas pessoas que desejo reencontrar no céu. Na faculdade também conheci outra querida e mui estimada irmã, Etelvina, carinhosamente apelidada Tel. Ela era missionária e havia servido o Senhor entre os índios em Mato Grosso já por dez anos, na época em que nos conhecemos. Embora os tempos de faculdade tenham sido marcados por experiências não tão agradáveis, Deus conservou minha fé e olhos fixos nEle. Trabalhou em mim de modo a me mostrar que era Fiel, dando-me a oportunidade de conhecer pessoas que, positivamente, me incentivaram na jornada cristã. Mas só depois que me casei, pude então concretizar meu sonho missionário, em 'Jerusalém'. Fazer visitas a pessoas sedentas da Palavra era algo tão extraordinariamente maravilhoso pra mim que as pessoas podiam sentir isso, tornando o trabalhar do Senhor mais gratificante em mim mesma. Porque falar de Jesus nos faz olhar para nossas atitudes e condição de pecador, possibilitando a busca na Palavra de algo que, de certa forma, nos revele o propósito de Deus em nós mesmos. Então, para não sermos hipócritas, devemos observar a Lei do Senhor, meditar nela e praticá-la, caso contrário, tudo o que compartilhamos com as pessoas das Escrituras não será realidade em nós. E isso me causava pavor... porque se não tocarmos a realidade das Escrituras, tudo o que ouvirmos e falarmos será vazio.
O Senhor tem me dado muitas oportunidades de compartilhar o Seu falar em diversos lugares. Nem eu mesma imaginei como o Senhor poderia fazer algo tão grandioso em uma pessoa que havia passado boa parte da vida alienada do Verdadeiro Propósito de Deus. Ele veio a mim; compadeceu-se, mas antes de tudo, me amou com amor eterno.

Desde que saímos do Jardim América e fomos para o Jardim Europa, pouca coisa mudou, a não ser que deixamos de congregar. Nesse período, lembro-me de uma apresentação na igreja da Nova Suíça para as mães. Eu era tão estupidamente ignorante de tudo. Convidei minha mãe, que não pôde ir, mas mesmo assim, pra mim foi indiferente para fazer a apresentação. Cantamos: "andei por todos os jardins, procurando a flor pra te ofertar. Em lugar algum eu encontrei a flor perfeita pra te dar. Ninguém sabia onde estava, esta flor me mostra perfeição, ela se chama 'flor mamãe' que só nasce no jardim do coração. Enfeita, nossos sonhos, perfuma nossa ilusão. Flor divina, que eu suponho, faz milagres em oração. Nesse dia, de carinho, quero oferecer com emoção: flor mamãe, amor perfeito". Acho que era assim. Era um pequeno jogral com coreografia e cada criança segurava uma flor artesanal em sua mão. Levei a flor e entreguei pra mamãe. Com ela todo meu amor, falho, pequeno, imperfeito, mas verdadeiro, infantil...

Hoje, olhando para essas memórias que vêm e vão, às vezes me emociono, porque tenho consciência que o que passou, não torna jamais. Nem minha mãe, que se foi em abril de 2009. Ela não volta em carne e osso para mim, mas sim, como essas lembranças,de forma esfumaçada, revelando poucos detalhes. Mas um que não consigo esquecer é o tom de sua voz, principalmente, quando ela me ligava perguntando se eu estava bem, se estava sentindo 'dor de cabeça', se tinha tomado meu café. Isso ela fazia constantemente...





































































































































quinta-feira, 9 de junho de 2016

Minhas amigas, onde estão?

Eu era uma menina de pouca conversa, poucos amigos e desconfiada. Se me olhavam 'torto', lá estava eu, descendo o braço. Mas tinha um grande amigo: meu irmão. Eu o considerava um protetor. Ele é apenas um ano mais velho, mas eu tinha tanta confiança nele, me entregava aos seus cuidados no caminho da escola e na própria escola. No primeiro ano estudamos juntos na mesma sala de aula. No ano seguinte, me trocaram de sala, mas eu fugia para a sala dele sempre que tinha oportunidade. Queria ficar perto dele. Na hora do recreio, ele ia jogar bola com os meninos e eu me sentava para observá-lo. Em vão ele me incentivava a brincar com alguém. Até que desistia de jogar pra ficar perto de mim. 

Um dia, fugi da minha sala pra sala dele e disse que a professora tinha deixado. Logo descobriram a mentira, quando minha professora foi até a sala me buscar. Fui parar na sala da diretora. Muito tímida, não tive coragem de dizer que queria usar o banheiro e fiz xixi na sala dela. Nessa época eu estudava na Escola Municipal de Primeiro Grau Maria Tomé Neto, na Nova Suíça, hoje um bairro nobre da capital goiana. Eu morava no Jardim América e íamos a pé. Não ficava muito longe. 

Na escola eu não tinha mesmo nenhuma amiga. Mas próximo a minha casa morava uma senhora muito distinta, membra da igreja Batista. Era a D. Levina. Ela tinha três filhas: Aparecida, Eliane e Eleusa. Também tinham as filhas do Pr. Paulo, da Igreja Batista, Cláudia e Gláucia. E os filhos da irmã Elisa: Vanilda, Vanilza, Waldemar e Eleonora. E da irmã Rita: Quésia, Wilma e Cléber. Todos esses da Igreja Assembléia de Deus. Os filhos do seu Abílio e da D. Amélia (ambos in memorian): Sandra, Tânia, Du, Walter e o Neném. Só com alguns desses amigos de infância que continuei a me relacionar, mesmo que só por meios virtuais. Alguns eu nunca mais vi. Sinto saudades deles. 

Depois nos mudamos para o Jardim Europa. Ali eu não me lembro de ter amigos. Não havia crianças da mesma idade. Haviam vizinhos bondosos com filhos um pouco mais velhos. Eram também pessoas boas. Mas ficamos ali só um ano. Depois nos mudamos para o Jardim Nova Era, Aparecida de Goiânia, onde passei a adolescência e juventude. Ali conheci sentimentos diversos. Amei, senti raiva, conheci o desprezo, mas também a verdadeira amizade. Dali trago lembranças boas e ruins. Mas agradeço a Deus por ter lembranças. Por me lembrar daqueles que fizeram parte da minha história de vida. A começar por meus irmãos e irmãs. Depois vizinhos, amigos mais distantes, colegas de escola e irmãos da Igreja. E, sinceramente, entre todas as pessoas do mundo, minha maior dor, conheci entre os irmãos da igreja em que congreguei. Na medida em que for me lembrando detalhadamente, escreverei, na certeza de que, talvez, o que vivi, possa servir, de algum modo, de experiência para você nunca desistir da vida, nem de seus princípios.  

Vovô morreu!

Ao retornarmos pra Goiânia, tivemos a notícia de que meus avós estavam ali em casa. Havia algum tempo que não os via e, apesar da enorme dor de cabeça que eu estava sentindo, fiquei feliz, mas ao mesmo tempo apreensiva. Nosso pequeno barracão de dois cômodos estaria acolhendo por pouco tempo, a pessoa que minha mãe mais amava: meu avô. Estava magro, com a barba e os cabelos crescidos. O rosto tinha muitas e profundas marcas, embora fosse tão novo, ele tinha apenas 58 anos. Por causa de um acidente ocorrido uns anos antes, meu avô foi ferido na cabeça. A ferida fora curada apenas superficialmente e nenhum exame fizeram nele na época. Agora, ele estava com tumores no lugar da ferida. Isso eu soube apenas anos depois. Fiquei por um tempo tentando reconhecer aquele homem que eu conheci com aspecto duro e cheio de vida. Ele usava bigode e era um homem bonito. Pele morena e cabelos bem negros. O peito totalmente coberto de pelos igualmente pretos. 

Lembro-me que ele tinha uma padaria. Algumas vezes o cheiro me vem à memória daqueles pães frescos, com casca tão fininha, tão bem assados e gostosos para o meu paladar infantil. Outra lembrança que tenho do meu avô [eu tinha pouco mais de cinco anos quando o vi pela última vez] era de vê-lo batendo feixes de arroz. Ele chamava meu irmão de Josiele. O 'e' acrescentado ao final da palavra terminada em 'l' era comum naquela época entre meus conhecidos do norte. Nessa época, vovô morava na cidade de Colmeia, antes Goiás, hoje atual estado do Tocantins. Moramos ali desde o nascimento de minhas quarta e quinta irmãs, de 1975 a 1977. Nesse mesmo ano nos mudamos para Goiânia. Meu avô morreu em março de 1980, trinta dias após ser internado e ter passado por duas cirurgias para retirada dos tumores. 

Quando descemos do caminhão, chegando de São Luís de Montes Belos, corri para ver meus avós. Vovô estava deitado na cama de minha mãe e da porta de entrada da cozinha para o quarto, o avistei tão frágil. Tomei sua bênção e fui para fora. Minha mãe havia preparado um colchão para que eu me deitasse [por causa da dor de cabeça]. Começava a escurecer e o tempo ficava também um pouco nublado. Meus pais tinham trazido muito milho verde e começaram a fazer pamonha. Fui acordada pela mamãe mais tarde. E comi pamonha recém-tirada do fogo. Como era doce, derretia juntamente com o queijo. Meus irmãos faziam algazarra pelo quintal. Fiquei feliz ao ouvir a voz de minha mãe e minha avó. Lembrei-me da presença deles ali e sorri.

Minha mãe conseguiu uma vaga no hospital Evangélico, em Goiânia, para meu avô. Nós, é claro, não podíamos visitá-lo porque éramos muito pequenos. Mas minha mãe estava o tempo todo com o vovô. Na primeira cirurgia que fez, vovô ficou com um lado paralisado. Na ocasião foram retirados três tumores. Uma nova tomografia mostrou que no local, nasceram outros seis tumores. Vovô passou por uma nova cirurgia e entrou em coma. Logo retornava ao nosso pequeno barracão, não mais aquela figura frágil, com marcas profundas no rosto e olhos cheios de lágrima. Agora ele chegava completamente imóvel num caixão. Vestido com uma camisa azul clara de mangas compridas, barba bem feita, mas com bigode. Sua aparência era de quem dormia um sono tranquilo, um repouso que não havia encontrado na terra antes, no meio dos viventes. Eu me lembrava do seu sorriso com um dente de ouro do lado. Como era bonito. Fomos privados de sua companhia, de seus ensinamentos, de sua sabedoria. Embora fosse um homem de poucas palavras, meu avô era um homem de palavra. Ele sempre dizia: "Um homem pra ser homem precisa de duas coisas: opinião e vergonha na cara". E assim ele viveu sua vida. E renunciou ao mundo pra viver pra Deus. Era cristão verdadeiro. [Suspiro!]. Que saudade, meu Deus.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"Papai, deixa a lamparina acesa!?".

É estranho como as memórias ficam armazenadas no nosso inconsciente, e como essas memórias determinam nossos passos no caminho da vida. Durante anos a fio, senti-me culpada por algo que eu não tinha feito, nem provocado. A culpa me corroía e me fazia ausentar-me das pessoa que me amavam. Mais do que isso, fazia com que minha conduta se tornasse automática, sem a mínima noção do certo e do errado. Como se percebe, no meu interior estava uma guerra que, por muitos anos, chamei de 'poço de contradições'. Segundo Yancey, a culpa "é um estado de espírito que leva a pessoa  a se sentir merecedora do castigo pela violação da Lei moral".

O que senti naquela noite foi medo, angústia e sórdida ignorância do que estava havendo. Sentia um corpo nu sobre mim, beijando-me a boca e levando minhas mãos até suas partes íntimas. Sentia minha roupa próximo ao joelho. E uma espécie de pavor me fazia respirar forte, mas fingia que estava dormindo. A única coisa que me vinha à mente é que se meu pai soubesse o que estava havendo, me bateria. Sim. Tive medo de apanhar do meu pai. E sustentei uma mentira para tornar meu gesto 'nobre', dizendo que não gritei para proteger a vida do estranho. Tinha tanta gente na casa. Tantos trabalhadores. Ele poderia ser linchado. Mas eu estava com medo da reação do meu pai em relação a mim.

As surras que levei desde bem pequena me tornaram uma pessoa sem coragem para pedir ajuda. Ou mesmo para me abrir com alguém. Nem com minha mãe eu conseguia dizer tal coisa. E por muitos anos guardei pra mim mesma. Ele não me violentou sexualmente. Mas me senti invadida psicologicamente. Foi um ato violento pra mim, embora não houvesse penetração. Minha chamou meu pai porque queria usar o banheiro. Foi como se Deus sorrisse pra mim e me mostrasse um auxílio. Meu pai entrou no quarto com uma lamparina. Não sei pra onde aquele estranho foi. Quando meu pai e minha irmã voltaram, pedi ao meu pai que deixasse a lamparina acesa. Tinha medo que ele voltasse. Mas graças a Deus, nunca mais voltou. 

No outro dia, rodeei minha mãe inúmeras vezes querendo uma oportunidade para contar. Lembro-me que fiquei próxima à cisterna. A água era tão alta, a cisterna tão cheia que vinha até quase à boca. Quase não precisava de corda. Naquela fazenda minava água. Lembro de uma vez que meu pai abriu uma cova para fazer uma churrasqueira. Não tinha 20 cm de profundidade, mas ele teve que forrá-la com tijolos. Minha mãe entrava e saía da casa, buscava água. Quando se aproximava eu dizia: "Mamãe! [...]". Mas era tudo. Não sabia o que dizer. Aliás, não sabia como dizer.

Então, tomava banho mais cedo e me escondia no paiol antes que os homens chegassem da lida. Enquanto eles iam lavar-se no pequeno córrego da propriedade, eu jantava e ia me deitar. Nunca mais ouvi nenhuma história. E foi assim até voltarmos pra casa.   

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Noite escura

Há uma tendência em cada um de nós de negar a solidão. Queremos viver a vida com independência, sem nos apoiar em outras pessoas. Mas um sentimento incômodo de solidão continua se interpondo em nosso caminho. Às vezes ele se torna tão forte que mal conseguimos pensar em qualquer ou­tra coisa. Eu creio que Deus nos criou incompletos, não como um truque cruel para nos deixar sempre no limite da autopiedade, mas como uma oportunidade de nos voltarmos para os outros com necessidades semelhantes. Seu plano como um todo para nós envolve relacionamentos com os outros: doarmo-nos em amor ao mundo ao nosso redor. (Philip Yancey).

Lembro-me do pequeno barracão em que morávamos no Jardim América. Dois minúsculos cômodos, feitos de adobe e reboco de barro. A cobertura tinha uma telha francesa, e eu gostava de ficar olhando os detalhes que ela possuía. No quarto tinha a cama dos meus pais na parede do fundo, em frente à porta da entrada, nos pés da cama ficava a nossa, minha e de meus quatro irmãos menores, porque uma irmãzinha dormia com meus pais. Fechando o contorno do quarto, e do lado oposto à cama dos meus pais, próximo à porta, ficava um móvel onde minha mãe guardava nossas roupas. E à moda de um criado mudo, ao lado da cama de casal, um outro móvel com uma radiola. Através dela, eu tive o privilégio de ouvir as mais lindas canções evangélicas de décadas anteriores. O centro do minúsculo quarto que sobrava, mal cabia uma bacia de alumínio que mamãe utilizava para lavar-se, e também a meu pai e a nós os seis filhos. Banheiro era um luxo que ainda não tínhamos tido condições de possuir. A cozinha era outro cômodo muito pequeno. Havia um fogão de quatro bocas, uma prateleira rigorosamente organizada, com vasilhas de alumínio muito bem areadas, com forros brancos e bem passados. Minha mãe sempre foi caprichosa com a casa e conosco. Como sabia costurar, fazia belos vestidos pra nós e roupas sociais para meus irmãos, para ela mesma e para meu pai. Também havia um pequeno banco de madeira muito pesado. Diversas vezes ele quase esmagara meus pés, um de cada vez. Esses eram os móveis que tínhamos. Mas como éramos pequenos, pra nós que não conhecíamos conforto, nem luxo, a vida era muito boa, com muitas brincadeiras e diversões.

Tudo o que tínhamos, ou o pouco que meu pai conseguia quando trabalhava nas fazendas quando levava energia elétrica, era dividido com os vizinhos. Meu pai nos ensinou assim, dividir o pouco, mas com alegria. Acredito que esse comportamento de meu pai era proposital, primeiro, porque era cristão, segundo, porque também passou por privações na infância. Mas, lutador como era, nunca abaixou a cabeça. Antes lutou com todas as forças para sustentar a família de modo digno. Watchman Nee diz: "Um cristão é alguém que não apenas se conforma com a situação, mas está sempre satisfeito". Era assim com meu pai, era assim com minha mãe, do mesmo modo com meus irmãos, mas [...] e eu? Por que me sentia tão sozinha, nunca estava satisfeita. 

Uma vez eu disse pra minha mãe que ia beber veneno. Ela preparou um copo com alguma coisa que, pra mim era veneno, mas hoje sei que ela não colocaria veneno de verdade, mas nunca mais falamos sobre o assunto. E me deu o copo. e me desafiou a beber. Eu nunca mais disse aquilo, mas também deixei de ter a plena confiança que tinha depositado neles. E isso me fez carregar por muitos anos uma dor causada em uma noite escura. Meu pai havia pegado um serviço em São Luís de Montes Belos. Zona rural. E como ficariam muitos dias, levou-nos, juntamente com minha mãe para que ela cozinhasse para os peões que, claro, não eram poucos. A casa era grande, mas não tinha móveis e tínhamos que dormir no chão. Também foi uma outra família, uma senhora com dois filhos pequenos, esposa de um colega de trabalho de meu pai que, agora, era o encarregado da turma, morar na mesma casa que a gente.

Inicialmente nos sentíamos livres, correndo e brincando. Nos finais de semana, fazíamos churrasco. À noite nos sentávamos na porta da casa [que ainda não tinha energia elétrica] para contar histórias de mula sem cabeça, de tesouros escondidos, de lobisomem, de 'pai-do-mato', entre outras. Era muito bom. Mas durou pouco. Numa dessas noites chegou um caminhão carregado de materiais e postes. Eu era a mais velha da turma, abaixo somente de meu irmão, tinha apenas 9 anos. Era fim de tarde. Jantamos e nos sentamos para contar histórias. Inocente, sentei-me no colo do motorista do caminhão recém-chegado. ele colocou a mão sobre a minha blusa e começou a acariciar meu peito. Claro que ainda não tinha seios, nem em formação. E eu, nem de longe, sabia o que significava aquilo[...].





  

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Primeiros Anos Escolares


Recordar a própria vida é fundamental para nosso sentimento de identidade; continuar lidando com essa lembrança pode fortalecer, ou recapturar, a autoconfiança. (THOMPSON, 1988).

No ano em que completaria oito anos de idade, em 1979, fui matriculada juntamente com meu irmão na “Escola Municipal de Primeiro Grau Maria Tomé Neto”, num bairro hoje nobre de Goiânia, chamado Nova Suíça. Ali estudei dois anos. Nesse período eu tinha fortíssimas dores de cabeça (enxaqueca) e cheguei a ser reprovada por falta por causa das fortes crises. Talvez por isso não tenha guardado muitas recordações das primeiras lições que aprendi, da escola e das professoras daquele período.
Mas lembro-me que na primeira série eu gostava de me vestir de blusa branca e saia azul de pregas que minha mãe passava com tanto capricho (sem, infelizmente, ter condições de calçar as tão sonhadas meias brancas e sapatinhos pretos) e ficar numa fila para cantarmos o hino nacional brasileiro enquanto a bandeira era hasteada. Gostava de Educação Moral e Cívica e, posteriormente, de OSPB (Organização Social e Política Brasileira). Não tinha mesmo consciência de que tais disciplinas fossem formas de controle moral durante a ditadura militar.
Como bem afirmara Celso Furtado, o autoritarismo agrava a exploração da massa trabalhadora e priva as pessoas de seus direitos fundamentais, que são os civis; restringe a participação da cidadania na atividade política e degrada o exercício do poder ao privá-lo de controle social. É a prática política que indica os caminhos na construção do quadro institucional que dê efetividade aos ideais de liberdade, bem-estar e tolerância, que são a essência da civilização moderna.
E a prática política civil não poderia ser aceita num regime autoritarista, muito menos ensinada numa educação fundamentada numa prática bancária. Como pondera Freire, uma educação não deve ser superficial, mas uma educação que ensine o ser humano a ler a própria realidade de opressão com olhos críticos, olhos que o levassem a entender sua condição de oprimido; que o ensinasse a ler a gramática das relações sociais. Nesse sentido, ele contradiz os conceitos de transmissão de hábitos bons ou virtudes (mediados pela educação que pretendia uma conformidade social), mediante as quais o ser humano poderia fazer uso reto das suas faculdades, como ensejava Aristóteles. Pois sempre acreditou que o conteúdo da educação não poderia ser trazido pronto para que o educando apenas o “engolisse”, mas sim, concebido e realizado no grupo, nas situações históricas da comunidade da qual fazem parte o educador e o educando.
Entretanto, no período citado, havia uma ampla conformidade comportamental da massa, um comportamento determinado por regras que já estavam internalizadas pelos participantes dos grupos. Alvarenga diz que o comportamento social é determinado por essas regras internalizadas implícitas (através de uma coação social generalizada) ou explícitas, que se dão pela coerção direta (ou punição pelo comportamento social inadequado). Eu pude perceber isso na educação que meus pais nos davam.

[...] toda ação é determinada pelas motivações do ator hipotético, mas, como estas motivações são determinadas, por sua vez, pelo meio cultural em que ele vive, a sua própria ação, então, é condicionada por este meio cultural. (ALVARENGA, 2002, p.39).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS, REFLEXÕES E PRÁTICA EM EDUCAÇÃO SUPERIOR: USO DE MODALIZADORES POR APRENDIZES DE LÍNGUA ITALIANA (L2) E PORTUGUÊS INSTRUMENTAL E TÉCNICAS DE PRODUÇÃO DE TEXTOS.

A prática da liberdade só encontrará adequada expressão numa pedagogia em que o oprimido tenha condições de, reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se como sujeito de sua própria destinação histórica. (Ernani Maria Fiori sobre a obra de Paulo Freire).
13 de abril de 1971. Vim à luz numa casa de paus-a-pique e cobertura de bacuri, numa pequena propriedade rural do povoado de Planura Verde, município de São Luís de Montes Belos, interior de Goiás. Minha mãe dizia que no momento em que nasci, segurei o braço da parteira com os dois braços e as duas pernas juntas, abraçando-o.
John Dewey (1859-1952) acreditava que a ação é inerente à natureza humana, precedendo o conhecimento e o pensamento. Esse gesto de um bebê recém-nascido demonstra ser um exemplo de que o instinto de autoproteção leva o ser humano a buscar diversas formas de se resguardar de tudo aquilo que o arranca de sua “posição de conforto”. O útero é assim, protetor, temperatura agradável. Ali o bebê não sente fome, nem sede, nem necessidade de buscar ser atendido em algo, já que suas necessidades são satisfeitas sem que faça esforço algum, sem que lute por isso, pois tudo está bem.
Mas era somente lá. Porque, nesse período, o Brasil vivia um tempo de repressão e ditadura militar. Pessoas eram presas, torturadas, mortas, arrancadas do convívio familiar e da sociedade por representarem uma “ameaça” à ordem e ao progresso. Na educação, por toda a parte, educadores eram presos e seus trabalhos combatidos.
Para Celso Furtado, que também fora privado dos direitos políticos, preferindo exilar-se em busca de condições que lhe permitissem estudar o papel das ideologias nas experiências de reconstrução social, tendo em vista a superação da pobreza e do atraso das massas: “O exilado não é mais do que um homem desvalido”, tendo como principal desafio “encontrar uma justificativa para a vida, inventar todos os dias uma compensação para o esforço que significa viver”.
Os eventos que tornam as pessoas vulneráveis não são apenas motivados por aspectos de natureza econômica, antes, são também de fragilização dos vínculos afetivos e relacionais, de incumbências sociais tais como, discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiência, vinculadas à violência, ao território, à representação política, etc. todos igualmente afetam as pessoas. Tais questões são geradas socialmente, podendo ser originadas das formas como as pessoas lidam com as perdas, com os conflitos, com a morte, com a separação, igualmente com as rupturas e entendidas como questões de subjetividade e intersubjetividade no meio familiar e social. (ALMEIDA, 2006)
No seio de minha família, no meio rural, persistia o conceito filosófico da práxis social marxista de que o homem é aquilo que se manifesta em sua vida, coincidindo com o que produz, o quanto produz e como produz. Considerando-se que as condições materiais da produção do homem definam o que ele é realmente. Na realidade, a individualidade dessa concepção traduzia-se na coletividade rural daquele período em que sem uma educação formal, muitos acabavam reprimindo-se. Não foi diferente em relação aos meus pais, aos quais restava apenas a força física para a aplicação dos conhecimentos da lida em que eles próprios nasceram. Planura foi um dos locais que consumiram boa parte da força jovem de meus pais que trabalhavam em terreno alheio, já que seu ganho era insuficiente para manter a família e adquirir um local próprio. Agora, se as condições sociais eram precárias, as de educação formal não eram tão distintas delas.
Entretanto, apesar da vida modesta e das diversas vezes que nos mudávamos de um lugar para outro, fato que tirava-nos a possibilidade de constituir um local realmente nosso e que nos desse alguma identidade, uma raiz crescia e se fortalecia nos laços familiares: a nossa fé. Essa mesma que nos acompanhou nos momentos de crise e de escassez, de dor e desespero quando o que tínhamos mal dava para alimentar o corpo. A despeito da escassez, nosso lar era um local onde meus pais nos ensinavam princípios e valores que nos acompanharam por toda a vida. Com eles aprendemos a amar mais as pessoas do que as coisas. E até mesmo o pouco que tínhamos era divido com quem possuía menos ainda.
Parte do êxodo rural deu-se por causa das durezas do trabalho braçal, pela falta de escola para aqueles que se aventuravam a querer aprender um pouco mais do que seus próprios pais sabiam. Além disso, o homem do campo mais do que ninguém reconhecia que tudo o que ele plantava, além de demandar tempo para colher, ainda dependia de sol e chuva a seu tempo. O plantio “na meia” era uma prática que meus pais conheciam bem. Mas, da metade que lhes sobrava, ainda tinham os impostos descontados, o aluguel e as despesas, restando muito pouco para se viver. Não tinham direitos, não como cidadãos.
A conquista da cidadania foi considerada por Gramsci como um objetivo da escola que deveria ser orientada para a elevação cultural das massas, livrando-as de uma visão de mundo cheia de preconceitos e tabus, em parte impregnados de equívocos decorrentes da religião e do folclore, que favoreciam a interiorização acrítica da ideologia das classes dominantes. Bem, nenhuma das famílias rurais pobres da época era capaz de lutar contra as injustiças sociais que lhes eram impostas de muitas maneiras.  Na contramão da “cidadania”, o homem rural não possuía nenhuma noção de criticidade contra as forças exercidas pelas instituições políticas e, sobretudo, pelo controle militar, e ele mesmo não tinha conhecimento disso. Não havia escola, pelo menos, não para todos.

Se houvesse, talvez os menos favorecidos pudessem, através da alfabetização, construir uma visão de mundo que lhes proporcionasse meios de alterar sua condição (sub)humana. Além disso, a educação se constitui um meio fundamental de os homens transmitirem cultura, ciência, história, filosofia, sua própria essência, dimensão afetiva e intelectual, ao passo que sua interrupção, ao contrário, é a segregação desse processo. (ALMEIDA, 2006).
Ainda na década de 1970 houve uma grande intervenção dos propósitos e finalidades do ensino com o intuito de “ajustá-lo” às necessidades da produção, passando a educação às mãos do ensino particular tornando-se uma educação seletiva e bancária, provocando ainda mais seu distanciamento das classes mais pobres, especialmente, para os moradores da zona rural. (SARTÓRIO, 2010). Meus pais vivenciaram isso na própria pele.
Nessa realidade, “a educação assume uma dimensão meramente instrumental, qual seja, a de preparar força de trabalho para um mercado em desaparecimento”. (GERMANO, 1998, p. 14). Isso demonstra uma contradição: o indivíduo deve se preparar para o mercado de trabalho, ou, do contrário, estará excluído dele. Por outro lado, as políticas educacionais passam a ser formuladas com o intuito de fornecer, ainda conforme Germano (1998, p. 17), “o mínimo ou a cesta básica da educação à população pobre”.
Quando nos mudamos, em março 1977, da cidade de Colmeia, hoje interior do estado do Tocantins, para a capital Goiânia em busca de condições melhores de vida, eu tinha 6 anos incompletos. E até então eu e meus irmãos havíamos frequentado apenas a escola bíblica dominical (que, ao menos para mim, trazia verdadeiro consolo aprender sobre um amor tão grande que nos constrangia a Deus) realizada nas igrejas, mas nenhuma outra escola de educação formal. Em parte isso se deu por causa das tantas vezes que nos mudamos de uma cidade para outra, sempre em busca de melhorias. Mas agora, com um local mais ou menos definido, embora não nosso, teríamos oportunidade de frequentar uma escola.
Meus pais não eram contra estudarmos, pelo contrário, pois ambos tiveram dificuldades para conseguir um ensino elementar em suas vidas. Meu pai mal conseguiu frequentar dois anos e, como presente, recebeu um olho furado pela imprudência de uma professora que bateu em meu tio com um fio de energia elétrica, cuja ponta, ao se soltar, foi direto no olho de papai. Nessa época a correção dos “erros” era ainda mais severa, podendo ir além daqueles de ortografia e gramática. É também o que relata com maestria nossa poetisa goiana Cora Coralina em suas memórias dos tempos escolares. Um método de correção que contrariava a posição de muitos filósofos, inclusive de Sócrates quando afirmava que o mestre deve ter paciência com os erros e com as dúvidas dos discípulos, já que a consciência dos próprios erros leva os alunos à progressão na aprendizagem. Paulo Freire acreditava que o método de correção baseado na reescritura poderia fazer com que os alunos observassem os próprios erros, mas não apenas aqueles de ordem gramatical, como também de coesão e coerência, de cognição, uma vez que em muitos textos é possível perceber ausência de vocábulos, falta de conclusão de pensamentos e daí por diante.
Mas o fato de não ter estudado não fez de meu pai menos sábio do que sempre foi. Seu conhecimento de mundo era admirado por nós e até hoje sei que se tornaria um excelente profissional em qualquer área do conhecimento humano que escolhesse, embora as condições sociais o impedissem de realizar tal sonho. “Mas o espírito humano conduz progressivamente à descoberta de si próprio e cria, pelo conhecimento do mundo exterior e interior, formas melhores de existência humana”. (JAEGER, 2003, p. 3).
Talvez as conquistas que ele esperava obter na vida sempre estivessem longe da educação formal, não por vontade própria, mas porque estava muito aquém de sua realidade. O que não o impediu de obter uma forma melhor de existência. E nossas condições de pobreza nos fizeram admiradores de um homem honrado e trabalhador que meu pai sempre foi e ainda é. Hoje, não tão velho, no ano de 2013 completou 64 anos, não possui força nem saúde para trabalhar. Esgotado pelos esforços físicos dos trabalhos rurais, inicialmente, depois igualmente braçais, quando foi obrigado a cavar buracos em serviços de encanamento urbano, experiência que lhe elevou ao cargo de encarregado de turma numa firma de eletrificação rural (Elicastro) por sua determinação e vontade de vencer a cada dia. Como encarregado, tornou-se um grande eletricista (ele e meus dois irmãos que abandonaram a escola para trabalharem), aproveitando as oportunidades que tinha. Nunca se cansou de batalhar e sempre enfrentou os trabalhos, mesmo sem experiência anterior na função.
Talvez fosse a vida de trabalhos penosos que fizera de meu pai um homem igualmente duro, inabalável diante das dificuldades. Como não tinha tempo, também não tinha paciência para lidar com a esposa e filhos. Tudo o que nos ensinava era com autoridade. Meu pai tinha dificuldade de demonstrar carinho, mas o modo como tratava as pessoas menos favorecidas, servia como exemplo de um homem de bom coração. Por isso, o seu exemplo de vida nos impactava mais que sua dureza. Então, tínhamos a certeza de que a vida era dura, mas como ele, adquirimos grande coragem de enfrentá-la sem medo.
Minha mãe frequentou o que na época era considerado mais do que “suficiente” para uma mulher (quando uma mulher conseguia ingressar-se numa escola, claro). No ano em que prestaria o Exame de Admissão, meu avô achou que já era satisfatório e comprou-lhe uma máquina de costura. Achava que seria um melhor presente para uma futura dona de casa. Foi útil porque posteriormente nossas melhores roupas foram feitas por ela quando morávamos na roça. Com meu avô ela aprendeu também os ofícios de padeiro, o que fez dela uma ótima cozinheira também.
Minha mãe era uma mulher muito forte. Uma verdadeira leoa na defesa dos filhos. Na lida do campo trabalhava de ombro a ombro com meu pai, cuidava com afinco dos afazeres domésticos e também dos filhos, e não se deixava abater por nada. Como havia recebido uma educação formal melhor, era ela quem nos ajudava nas tarefas escolares. Com mamãe aprendi a cozinhar e cuidar de meus irmãos menores. Meus pais não demonstravam fraqueza, embora percebêssemos que nem sempre conseguiam suprir todas as nossas necessidades, nos momentos de fartura, nos ensinaram a dividir com os outros tudo o que tínhamos.
Talvez pelo fato de meus pais jamais demonstrarem fraqueza, cresci com as mesmas dificuldades de pedir ajuda, de mostrar minhas deficiências, meus defeitos. Mas de certa forma esse exemplo contribuiu para meu crescimento, amadurecimento e para o aumento da minha fé. Não aquela fé religiosa, mas uma certeza de que Deus com um propósito maior e sendo mais forte do que todos estava me protegendo. A maior percepção que tive de amizade e proteção foi com Deus, e com meu irmão mais velho durante a infância.
Nessa linha de pensamento, entendo os princípios postulados por John Frederick Herbart (1776-1841) sobre a unidade do desenvolvimento e da vida mental. Em sua concepção, o ser humano não é compartimentado, mas uma unidade. E tem a capacidade de estar em contato com o meio ambiente por meio da percepção sensorial, dando origem às representações primárias que, posteriormente, formam os conceitos cuja interação entre eles conduz ao ato de julgamento e raciocínio. Sendo, pois, a percepção a característica fundamental do ser humano, sua capacidade de assimilação, que forma uma unidade não apenas do ser, como também do ato de conhecer. Eu me sentia inteira na minha infância, no contato com a natureza, mesmo a despeito das privações.